Brasil é o maior consumidor de agrotóxico do mundo

Só em 2010 o país utilizou mais de 800 milhões de litros em suas lavouras

19/03/2014

Por Bruno Pavan

De São Paulo (SP)

A escolha do governo brasileiro pelo agronegócio, porém, acarreta em riscos até pra quem escolhe se alimentar a base de alimentos naturais. As grandes corporações, para aumentar sua lucratividade e deixar sua safra imune a pragas, estão fazendo com que o país seja invadido por venenos agrícolas e alimentos transgênicos.

Desde 2008 o Brasil é o país que mais consome agrotóxico no mundo e, só em 2010, utilizou mais de 800 milhões de litros em suas lavouras. O Mato Grosso, estado que mais consome, sozinho, utilizou 113 milhões de litros.

O professor Wanderley Pignati, da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), é responsável por um estudo que analisou os impactos do consumo de agrotóxico no interior do estado e aponta que o grande problema hoje é que as grandes corporações transformaram “os alimentos em mercadoria”.

Um dos episódios mais emblemáticos aconteceu em 2006 na cidade de Lucas do Rio Verde. Enquanto os fazendeiros dessecavam a soja transgênica para a colheita utilizando o herbicida paraquat, uma nuvem tóxica se formou dando origem a uma chuva de agrotóxico sobre a cidade que devastou canteiros de plantas medicinais, chácaras de hortaliças e deixou centenas de crianças e idosos com intoxicações agudas.

O estudo de Pignati levanta outros dados alarmantes da presença de agrotóxicos em Lucas do Rio Verde: poços de água potáveis, água da chuva e o ar apresentaram altos índices de contaminação, assim como a urina dos professores da cidade. A contaminação também atingiu o leite materno: 100% das 62 mães apresentavam alteração.

Em outubro de 2013, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) lançou o resultado do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (Para). O levantamento mostrou que 36% das amostras de alimentos analisadas em 2011 e 29% das realizadas em 2012 tiveram presença elevada de agrotóxico. Além disso, 30% apresentaram índices abaixo do permitido, mas que também pode ser nocivo à saúde.

Os alimentos escolhidos basearam-se em dados de consumo obtidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O campeão de presença de agrotóxico foi o pimentão. Das 213 amostras estudadas, 89% estavam irregulares em 2011. A cenoura teve 67% das amostras contaminadas em 2011 e 33% em 2012 e o pepino, 44% em 2011 e 42% em 2012.

Transgênicos

Os transgênicos também estão entrando cada vez mais fortes e com pouca fiscalização no país. De acordo com o Ministério da Agricultura, pecuária e Abastecimento (MAPA), na safra 2012/2013 nada menos que 83% da produção de soja foram de grãos geneticamente modificados.

De acordo com, Maria Laura Louzada, o governo brasileiro precisará agir de forma direta para que o acesso da população aos orgânicos aumente nos próximos anos. “Como esses alimentos ainda são relativamente caros para grande parte da sociedade, incentivos fiscais a produção e a vinculação de compras públicas a esse tipo de alimento poderiam ser duas saídas para democratizar os orgânicos”, sugeriu.

Como fugir do agronegócio?

Afinal de contas, qual é a saída para o brasileiro comer bem? A resposta pode ser mais simples do que se imagina: a agricultura familiar.

Sem associações com fábricas de agrotóxicos e com menos compromisso com o lucro capitalista, a proximidade das lavouras com o consumidor final pode ser uma saída simples e saudável para o aumento da qualidade e até a queda de preços dos alimentos no Brasil.

De acordo com levantamento da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), entidade liga da a ONU, a agricultura familiar é uma das principais atividades geradoras de novas fontes de trabalho. No Brasil, ela já é responsável por 77% dos empregos agrícolas.

Para a safra 2013/2014 o governo brasileiro prevê investir R$ 39 bilhões para o fortalecimento da atividade, que foi responsável por 38% do Valor Bruto da Produção Agropecuária. Em 2013, de acordo com o Ministério do Desenvolvimento Agrário, o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) disponibilizou a quantia recorde de R$ 18,6 bilhões.

Pignati acredita que, para haver uma mudança drástica no modo de produção, o Brasil teria que investir ainda mais em alternativas ao agronegócio. “A Safra 2014 prevê R$ 138 bilhões para o agronegócio e R$ 3 bilhões para a Agroecologia. Essa lógica tem que se inverter a médio prazo para termos alimentos saudáveis e não mercadorias ou commodities”, analisou.

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