Cadê o cinema que estava aqui?


Especulação imobiliária, novas tecnologias e mudanças no comportamento são alguns dos motivos para fechamento de salas de rua.

08/01/2016

Por Raíssa Lopes,

De Belo Horizonre (MG)


 
Cine Metrópole | Foto: Acervo Iepha 

“Na mocidade, me reunia com minhas amigas no Centro para vermos filmes juntas. Sempre tomávamos um lanche depois, era parte do ‘ritual’. O cinema era uma magia... Quando acabou, deixou um vazio”, relembra a professora Simone Carsalade, hoje com 55 anos. Aos 20, a docente vivia em uma Belo Horizonte diferente, uma antiga capital que respirava a sétima arte até a década de 1970, quando começou a decadência. Fechamentos massivos interromperam a atividade dos projetores e a rotina daqueles que faziam das casas de filme um ponto de encontro. 

“Mudança de tecnologia, especulação imobiliária... Foram muitos os fatores que desencadearam a queda dos cinemas daqui”, analisa o cineasta Bellini Andrade, idealizador do documentário “Metrópoles”, lançado em 2012. O longa, que retrata o processo de ascensão e derrocada de 24 salas de Belo Horizonte, concentra no título uma homenagem ao obsoleto Cine Metrópole – fundado em 1942 – e um dos motivos primordiais para o fim da atividade: o crescimento da cidade. 

Bellini explica que a partir do desenvolvimento da capital, os espaços para estacionar carros foram se tornando escassos e a violência começou a se intensificar. Paralelamente, acontecia o surgimento do VHs e exibição de filmes na televisão, o que contribuiu para que os moradores mudassem a forma de experimentar a cidade. Já fragilizados, os cinemas de rua se depararam com o vilão dos desafios: a especulação imobiliária. 

“Nessa época, houve a eclosão de igrejas evangélicas. Os cinemas eram estabelecimentos muito confortáveis para elas, já possuíam palcos, plateia, estrutura pronta. Não mais tão rentáveis, se viram obrigados a ceder à procura de grandes empreendimentos. Não coincidentemente, muitos se tornaram também estacionamentos, bancos e boates”, revela. Os donos das salas, como tentativa final de salvamento, ainda transformaram as casas em cines pornôs ou locais de exibição de longas de ação – programação que não segurou por muito tempo.

Pedro Olivotto, ex-proprietário do Cine Belas Artes, único em atividade em Belo Horizonte, atribui a decadência dos cinemas de rua à influência da indústria norte-americana na cultura brasileira. “As áreas de lazer hoje estão confinadas. As pessoas vão aos shoppings, não aos cinemas. Se manter na rua é muito mais caro porque os estabelecimentos não possuem os confortos que a classe média exige, e essa migração [aos centros comerciais] faz com que o cinema perca sua expressão artística e se torne puramente entretenimento. Os cidadãos passaram a escolher aquilo que o consumo oferece mais facilmente”, reflete.  

 
  
Cine Belas Artes
O cinema de rua comercial que hoje resiste em BH foi criado em 1992, por iniciativa da cineasta Elza Cataldo. Na década de 60, o local funcionava como DCE da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e lá, além de estudantes, a esquerda brasileira também se reunia para organizar ações contra o Governo Militar. Disponibilizando filmes fora do circuito comercial, o Belas Artes, segundo Olivotto, consegue se manter com a combinação entre bilheteria, café e patrocínio. “A iniciativa pública é totalmente centralizada em BH e, para resistir, a sala precisa de militância – hoje a cargo do diretor Adhemar Oliveira”, comenta.
A reabertura de cerca de 300 salas em Minas Gerais chegou a ser levantada pela Secretaria de Estado da Cultura, mas ainda não há proposta definitiva.
 Trajetória

Uma cartografia que conta a história das salas de cinema da capital foi criada por alunas da Pontifícia Universidade Católica (PUC), contendo um mapa com informações e fotografias de cada cinema da cidade, além de acervo das memórias afetivas dos usuários. O trabalho desenvolvido por Luiza Therezo, Maria Fernanda Chicre e Natália Meira pode ser encontrado no site www.cinemaderuabh.com e também na página do Facebook “Cinema de Rua BH”.

Veja o que já passou pela capital mineira:

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