O brasileiro come veneno

Divulgação

O documentarista Silvio Tendler fala sobre seu filme/denúncia contra os rumos do modelo adotado na agricultura brasileira

 

01/08/2011

Aline Scarso,
da Redação

 

Silvio Tendler é um especialista em documentar a história brasileira. Já o fez a partir de João Goulart, Juscelino Kubitschek,Carlos Mariguela, Milton Santos, Glauber Rocha e outros nomes importantes. Em seu último documentário, Silvio não define nenhum personagem em particular, mas dá o alerta para uma grave questão que atualmente afeta a vida e a saúde dos brasileiros: o envenenamento a partir dos alimentos.

Em "O veneno está na mesa", lançado na segunda-feira (25) no Rio de Janeiro, o documentarista mostra que o Brasil está envenenando diariamente sua população a partir do uso abusivo de agrotóxicos nos alimentos. Em um ranking para se envergonhar, o brasileiro é o que mais consome agrotóxico em todo o mundo, sendo 5,2 litros a cada ano por habitante. As consequências, como mostra o documetário, são desastrosas.

Em entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, Silvio Tendler diz que o problema está no modelo de desenvolvimento brasileiro. E seu filme, que também é um produto da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida, capitaneada por uma dezena de movimentos sociais, nos leva a uma reflexão sobre os rumos desse modelo. Confira.

Brasil de Fato – Você que é um especialista em registrar a história do Brasil, por que resolveu documentar o impacto dos agrotóxicos sobre a agricultura e não um outro tema nacional?

Silvio Tendler – Porque a partir de agora estou querendo discutir o futuro e não mais o passado. Eu tenho todo o respeito pelo passado, adoro os filmes que fiz, adoro minha obra. Aliás, meus filmes não são voltados para o passado, são voltados para uma reflexão que ajuda a construir o presente e, de uma certa forma, o futuro. Mas estou muito preocupado. Na verdade esse filme nasceu de uma conversa minha com [o jornalista e escritor] Eduardo Galeano em Montevidéu [no Uruguai] há uns dois anos atrás, em que discutíamos o mundo, o futuro, a vida. E o Galeano estava muito preocupado porque o Brasil é o país que mais consumia agrotóxico no mundo. O mundo está sendo completamente intoxicado por uma indústria absolutamente desnecessária e gananciosa, cujo único objetivo realmente é ganhar dinheiro. Quer dizer, não tem nenhum sentido para a humanidade que justifique isso que está se fazendo com os seres humanos e a própria terra. A partir daí resolvi trabalhar essa questão. Conversei com o João Pedro Stédile [coordenador do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra], e ele disse que estavam preocupados com isso também. Por coincidência, surgiu a Campanha permanente contra os Agrotóxicos, movida por muitas entidades, todas absolutamente muito respeitadas e respeitáveis. Fizemos a parceria e o filme ficou pronto. É um filme que vai ter desdobramentos, porque eu agora quero trabalhar essas questões.

 

Então seus próximos documentários deverão tratar desse tema?

Pra você ter uma ideia, no contrato inicial desse documentário consta que ele seria feito em 26 minutos, mas é muita coisa pra falar. Então ficou em 50 [minutos]. E as pessoas quando viram o filme, ao invés de me dizerem ‘está muito longo’, disseram ‘está curto, você tem que falar mais’. Quer dizer, tem que discutir outras questões, e aí eu me entusiasmei com essa ideia e estou querendo discutir temas conexos à destruição do planeta por conta de um modelo de desenvolvimento perverso que está sendo adotado. Uma questão para ser discutida de forma urgente, que é conexa a esse filme, é o agronegócio. É o modelo de desenvolvimento brasileiro. Quer dizer, porque colocar os trabalhadores para fora da terra deles para que vivam de forma absolutamente marginal, provocando o inchaço das cidades e a perda de qualidade de vida para todo mundo, já que no espaço onde moravam cinco, vão morar 15? Por que se plantou no Brasil esse modelo que expulsa as pessoas da terra para concentrar a propriedade rural em poucas mãos, esse modelo de desenvolvimento, todo ele mecanizado, industrializado, desempregando mão de obra para que algumas pessoas tenham um lucro absurdo? E tudo está vinculado à exploração predatória da terra. Por que nós temos que desenvolver o mundo, a terra, o Brasil em função do lucro e não dos direitos do homem e da natureza? Essas são as questões que quero discutir.

 

Você também mostrou que até mesmo os trabalhadores que não foram expulsos do campo estão morrendo por aplicar em agrotóxicos nas plantações. O impacto na saúde desses agricultores é muito grande...

É mais grave que isso. Na verdade, o cara é obrigado a usar o agrotóxico. Se ele não usar o agrotóxico, ele não recebe o crédito do banco. O banco não financia a agricultura sem agrotóxico. Inclusive tem um camponês que fala isso no filme, o Adonai. Ele conta que no dia em que o inspetor do banco vai à plantação verificar se ele comprou os produtos, se você não tiver as notas da semente transgênica, do herbicida, etc, você é obrigado a devolver o dinheiro. Então não é verdade que se dá ao camponês agricultor o direito de dizer ‘não quero plantar transgênico’, ‘não quero trabalhar com herbicidas’, ‘quero trabalhar com agricultura orgânica, natural’. Porque para o banco, a garantia de que a safra vai vingar não é o trabalho do camponês e a sua relação com a terra, são os produtos químicos que são usados para afastar as pestes, afastar pragas. Esse modelo está completamente errado. O camponês não tem nenhum tipo de crédito alternativo, que dê a ele o direito de fazer um outro tipo de agricultura. E aí você deixa as pessoas morrendo como empregadas do agronegócio, como tem o Vanderlei, que é mostrado no filme. Depois de três anos fazendo a tal da mistura dos agrotóxicos, morreu de uma hepatopatia grave. Tem outra senhora de 32 anos que está ficando totalmente paralítica por conta do trabalho dela com agrotóxico na lavoura do fumo.

 

A impressão que dá é que os brasileiros estão se envenenando sem saber. Você acha que o filme pode contribuir para colocar o assunto em discussão?

Eu acho que a discussão é exatamente essa, a discussão é política. Eu, de uma certa maneira, despolitizei propositadamente o documentário. Eu não queria fazer um discurso em defesa da reforma agrária ou contra o agronegócio para não politizar a questão, para não parecer que, na verdade, a gente não quer comer bem, a gente quer dividir a terra. E são duas coisas que, apesar de conexas, eu não quis abordar. Eu não quis, digamos assustar a classe média. Eu só estou mostrando os malefícios que o agrotóxico provoca na vida da gente para que a classe média se convença que tem que lutar contra os agrotóxicos, que é uma luta que não é individual, é uma luta coletiva e política. Tem muita gente que parte do princípio ‘ah, então já sei, perto da minha casa tem uma feirinha orgânica e eu vou me virar e comer lá’, porque são pessoas que têm maior poder aquisitivo e poderiam comprar. Mas a questão não é essa. A questão é política, porque o agrotóxico está infiltrado no nosso cotidiano, entendeu? Queira você ou não, o agrotóxico chega à sua mesa através do pão, da pizza, do macarrão. O trigo é um trigo transgênico e chega a ser tratado com até oito cargas de pulverizador por ano. Você vai na pizzaria comer uma pizza deliciosa e aquilo ali tem transgênico. O que você está comendo na sua mesa é veneno. Isso independe de você. Hoje nada escapa. Então, ou você vai ser um monge recluso, plantando sua hortinha e sua terrinha, ou se você é uma pessoa que vai ficar exposta a isso e será obrigada a consumir.

Como você avalia o governo Dilma a partir dessa política de isenção fiscal para o uso de agrotóxico no campo brasileiro?

Deixa eu te falar, o governo Dilma está começando agora, não tem nenhum ano, então não dá para responsabilizá-la por essa política. Na verdade esse filme vai servir de alerta para ela também. Muitas das coisas que são ditas no filme, eles [o governo] não têm consciência. Esse filme não é para se vingar de ninguém. É para alertar. Quer dizer, na verdade você mora em Brasília, você está longe do mundo, e alguém diz para você ‘ah, isso é frescura da esquerda, esse problema não existe’, e os relatórios que colocam na sua mesa omitem as pessoas que estão morrendo por lidar diretamente com agrotóxico. [As mortes] vão todas para as vírgulas das estatísticas, entendeu? Acho que está na hora de mostrar que muitas vidas não seriam sacrificadas se a gente partisse para um modelo de agricultura mais humano, mais baseado nos insumos naturais, no manejo da terra, ao invés de intoxicar com veneno os rios, os lagos, os açudes, as pessoas, as crianças que vivem em volta, entendeu? Eu acho que seria ótimo se esse filme chegasse nas mãos da presidenta e ela pudesse tomar consciência desse modelo que nós estamos vivendo e, a partir daí, começasse a mudar as políticas.

 

No documentário você optou por não falar com as empresas produtoras de agrotóxicos. Essa ideia ficou para um outro documentário?

É porque eu não quis fazer um filme que abrisse uma discussão técnica. Se as empresas reclamarem muito e pedirem para falar, eu ouço. Eu já recebi alguns pedidos e deixei as portas abertas. No Ceará eu filmei um cara que trabalha com gado leiteiro que estava morrendo contaminado por causa de uma empresa vizinha. Eu filmei, a empresa vizinha reclamou e eu deixei a porta aberta, dizendo ‘tudo bem, então vamos trabalhar em breve isso num outro filme’. Se as empresas que manipulam e produzem agrotóxico me chamarem para conversar, eu vou. E vou me basear cientificamente na questão porque eles também são craques em enrolar. Querem comprovar que você está comendo veneno e tudo bem (risos). E eu preciso de subsídios para dizer que não, que aquele veneno não é necessário para a minha vida. Nesse primeiro momento, eu quis botar a discussão na mesa. Algumas pessoas já começaram a me assustar, ‘você vai tomar processo’, mas eu estou na vida para viver. Se o cara quiser me processar por um documentário no qual eu falei a verdade, ele processa pois tem o direito. Agora, eu tenho direito como cineasta, de dizer o que eu penso.

 

Esse filme será lançado somente no Rio ou em outras capitais também?

Eu estou convidado também para ir para Pernambuco em setembro, mas o filme pode acontecer independente de mim. Esse filme está saindo com o selinho de ‘copie e distribua’. Ele não será vendido. A gente vai fazer algumas cópias e distribuir dentro do sentido de multiplicação, no qual as pessoas recebem as cópias, fazem novas e as distribuem. O ideal é que cada entidade, e são mais de 20 bancando a Campanha, consiga distribuir pelo menos mil unidades. De cara você tem 20 mil cópias para serem distribuídas. E depois nós temos os estudantes, os movimentos sociais e sindicais, os professores. Vai ser uma discussão no Brasil. Temos que levar esse documentário para Brasília, para o Congresso, para a presidenta da República, para o ministro da Agricultura, para o Ibama. Todo mundo tem que ver esse filme.

 

E expectativa é boa então?

Sim. Eu sou um otimista. Sempre fui.

 

Foto: Gabriela Nehring

Comments

E a máfia dos medicamentos

Quando será que aparecerá uma alma corajosa para falar da máfia e dos cavalos de tróia que a industria farmaceutica cria. ou seja trata uma doença e abre as portas para outras tantas com o mesmo medicamento

Somos em Corpo e Espírito o que Respiramos, Tomamos e Comemos

Somos em Corpo e Espírito o que Respiramos, Tomamos e Comemos, é uma afirmação simples, mas que reflete o dia-a-dia de cada um.

Pena que o alcance do exclarecimento de uma informação direta e objetiva seja limitado pelo espaço permitido da divulgação.

A sociedade segue o caminho, somente permite que poucos saibam o destino que lhes espera.

Assim, poucos conseguem cercear muitos.

Mas, alguns felizmente conseguem salvar muitos ... E a vida segue.

 Acho que o importante é

 

Acho que o importante é lembrar que além da necessidade de ruptura da forma de se pensar agricultura segura, autônoma e sustentável pelo Banco, e por consequência, respeitar a condução da agricultura familiar com suas particularidades e baixo nível de dependência de inputs, é de se mostrar outras formas de superar estes desafios.

No campo das políticas públicas existem linhas de financiamento agroecológico por parte do Pronaf que atenderiam as espectativas do Seu Adonai, por exemplo . A política de Ater é desenhada, no papel, para também fomentar a produção alternativa de alimentos.

 

Novo paradigma agrário brasileiro

Sou estudante de agroecologia, e de fato o Brasil vive em um caos socioambiental que se intensifica cada dia a mais na vida campesina diante do total de descaso com a qualidade de vida no campo, que consequentemente reflete na saúde e na economia do nosso país. Está na hora de criar novas ideologias, novas perspectivas e uma nova concepção de como será o futuro do nosso Brasil com o cenário agrícola vendido para a grande “máfia do agroquímico”, que faz da ciência uma arma contra a mais importante riqueza do nosso país.

Estou muito satisfeito em ver como cresce a preocupação dos brasileiros, mas creio que precisamos cada vez mais de pessoas como você pra derrubar a verdadeira utopia do agronegócio brasileiro.

É urgente!

Parabéns! precisamos dar visibilidade e expandir ao maximo o filme e este debate!

A sociedade Brasileira não tem conhecimento da quantidade e da forma como é usado os Agrotóxicos! e as consequências? e as gerações futuras? nossas crianças...

Nos alegramos de fazer parte das filmagens! MPA ( Movimento dos Pequenos Agricultores) foi parceiro aqui no Sul e nossa realidade é critica!

Desgosto

Nessas horas, dá um desgosto da Ciência Agronômica brasileira. Durante a graduação de Eng. Agronômica, quantas vezes vi e ouvi os meus professores defenderem o uso de químicos tóxicos e transgênicos... Os alunos como eu que se identificavam com a Agroecologia eram chamados de "Eco-xiitas" ou "Eco-chatos"... Na maioria dos cursos de ciências agrárias não existem ainda disciplinas voltadas para uma abordagem sustentável da Agricultura... Os Movimentos Sociais Camponeses são ridicularizados durante as aulas de Sociologia Rural, pois normalmente faltam professores qualificados para as disciplinas sociais e humanísticas ... Enfim, para entender essa problemática é necessário saber que as transnacionais estão comprando os cursos de ciências agrárias... As universidades estão sendo vendidas, nesses tempos neoliberais. Os livros de fitossanidade vegetal são patrocinados pela Monsanto, a Bayer recruta estagiários do último período, a Ihara financia testes com móleculas inseticidas para os alunos de iniciação científica testarrem seus produtos nos campos experimentais das faculades... Enfim...

ALÉM DO LUCRO

Olá,

Achei extremamente útil para divulgação nos blogs, e como blogueira, gostaria de sugerir ao Silvio que pesquisasse e eventualmente abordasse também as outras razões bem além do lucro, que movem esse mercado da morte. Por exemplo, o que tem a Monsanto, a Bayer, etc a ver com a Nova Ordem Mundial?

 

Celia 

Excelente entrevista!

Parabéns pela belíssima entrevista: o assunto é sério e preocupante. Estou na corrente para divulgar o doc. Como faço para conseguir uma cópia? Veiculei a entrevista no blog que edito: www.terragaia.wordpress.com

Copia

Primeiro parabéns pela iniciativa, Silvio Tendler.

Na universidade tive acesso a informações desta natureza, mas o documentário é muito importante para a difusão deste conteúdo na sociedade.

Quero saber como eu faço pra consegui a copia deste documentário. Seria interessante disponibilizar para download?!

O Veneno Está na Mesa

Aí está a página para o filme:

http://www.youtube.com/watch?v=WYUn7Q5cpJ8&feature=share

abraços

FILME: "O veneno está na mesa"

Como eu faço para fazer o download do filme - não apenas assisti-lo - para gravar e distribuir cópias?

João Alves

como copiar

 

Basta utilizar o navegador firefox!

Firefox instalado, vá ateh a pagina da fundação Mozila, criadora do Firefox, e na área de ad-ons (programinhas gratuitos especialmente criados para rodarem no firefox)

e acrescente ao firefox o add-on "download-helper" . O firefox instala e faz tudo pra vc.

Depois vai aparecer um pequeno icone com 3 bolinhas girando ao lado da barra de endereço do navegador, elas giram sempre que existe algum filme disponivel para baixar! Como no caso do link do youtube com o filme em questão.

Ad-on instalado, entre na pag do Youtube fornecida pelo colega acima, clique com botão direito do mouse sobre o icone do ad-on e faça o download, simples!

Para assistir o filme depois, recomendo os players : VLC ou Kmplayer, gratuitos, podem ser encontrados em sites como o baixaki, sao bem melhores que o player Windowsmedia, da Ruindows.

O filme do youtube eh formato .FLV, para converter para .AVI, utilize o amigavel "Format Factory" entre varios outros programas disponiveis para este fim. Antes de converter, confira as especificações(tamanho, bilt rate) do filme atraves dos players que indiquei. Reproduza estas especificações ao fazer a conversao, para que a copia mantenha as caracteristicas do "original" .FLV.

DVD players em geral reproduzem facilmente formato .AVI, o que facilita a divulgação do filme.

 

Abs,

Anderson

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